EMPRESAS DE COMUNHÃO – ORGANIZAÇÕES SOLIDÁRIAS
Agostinho Dalla Valle

Cada um de nós deveria ao menos uma vez na vida circular pela periferia da cidade onde mora e verificar as condições de vulnerabilidade social em que vivem, ou sobrevivem, seus moradores. Na cidade de Porto Alegre, incrustado entre a Protásio e a Ipiranga, temos um bairro chamado Vila Bom Jesus com cerca de 30 mil pessoas vivendo numa enorme e pobre comunidade (não é socialmente correto falar em favela). É nesse ambiente que se localiza a Afaso – Associação de Famílias em Solidariedade que segue os princípios do Movimento Focolares, que acolhe mais de 100 crianças e suas famílias.

A fundadora do Movimento dos Focolares, a italiana Chiara Lubic em 1.991, após sobrevoar a cidade de São Paulo e observar as “comunidades” onde vive a população mais pobre, iniciou um movimento denominado economia de comunhão (comunhão no sentido de participação em comum) cujos princípios baseiam-se na cultura da economia a serviço das pessoas e não o contrário, a cultura da partilha justa e equilibrada e o bem estar dos colaboradores.

Chiara difundiu a régola d’oro (regra de ouro) com o significado de: faça ao outro aquilo que gostaria que fosse feito a você e com essa premissa, construir sentimentos de solidariedade, respeito aos outros, cidadania e responsabilidade social.

Para materializar essa cultura, Chiara criou o Polo Spartaco na cidade de Cotia – SP onde muitas empresas atuam no modo de economia de comunhão. Essas empresas de comunhão (EdC) são mais de 700 ao redor do mundo, tem no centro de suas atividades as pessoas e o bem estar social. São empresas normais, constituídas juridicamente nos formatos convencionais (S/A, limitada etc.) onde o lucro não está ausente, a diferença é que ele é partilhado colocando o homem na frente do dinheiro. Esses empresários são protagonistas de uma cultura de comunhão e capitalismo consciente, gerando empresas de comunhão.

O lucro dessas empresas é dividido em três partes: (i) para o desenvolvimento da empresa proporcionando a geração de mais emprego e renda (ii) para ajudar os menos favorecidos socialmente, contribuindo para redução da miséria e a construção de um mundo mais justo e fraterno (iii) para reforçar a cultura de economia de partilha e de reciprocidade.

Empresas de comunhão é um movimento ecumênico, não está ligado a uma ou outra religião e objetiva gerar valor (riqueza) compartilhando com a sociedade. São empresas cristãs que desenvolvem a espiritualidade organizacional partindo do princípio que a empresa também tem alma. O corpo da empresa são seus ativos e a alma são os seus valores, são as suas virtudes.

A grandeza desta palavra talvez não tenha nenhuma importância para algumas pessoas ou empresas, pois, a interpretação de espiritualidade é muito subjetiva e depende de cada um. Espiritualidade significa acreditar, fazer, tentar melhorar o mundo em alguma coisa. Significa sempre alguma renúncia, significa viver em harmonia com valores que estão acima do simples ganho financeiro. Na verdade, a estrada da espiritualidade está sempre em construção, é um caminho que avança, não um fim a ser alcançado.

Espiritualidade não é religiosidade, embora pari passu andam juntas. A religiosidade, segundo J.J.Camargo, é a expressão prática e mais completa da misericórdia que etimologicamente é a junção de compaixão e coração. É a capacidade de condoer-se com a dor do outro. O conceito não tem a ver com o quanto de devoção e fé em Deus você conta e sim com o seu estado de espírito, a forma de enxergar as coisas e a maneira de agir frente a elas. É claro que as pessoas com alto nível de espiritualidade são dotadas de mais religiosidade, mas aquelas que professam uma fé nem sempre a tem, no sentido contrário, aquele que se declara ateu é capaz de desenvolver um respeitável nível de espiritualidade. É por meio desse mindset que aprendemos a ser mais solidários e fraternos.

Nas últimas décadas discutiu-se em gestão empresarial teorias sobre a inteligência humana (QI), depois em inteligência emocional (QE) e somente agora discute-se o (QS) que é o quociente de inteligência espiritual. Estudos científicos conduzidos recentemente revelaram que há uma área no cérebro chamada “Ponto de Deus”, que é responsável pelas experiências espirituais e, simultaneamente, por acionar a necessidade do homem em buscar os porquês de sua vida. O QS está relacionado ao propósito das pessoas e das empresas.

Propósito é o tema do momento na filosofia estratégica das empresas.

A maioria das empresas sabe o que produzem, como produzem mas poucas sabem por que produzem, e aqui entra a ausência de um propósito.

“As pessoas não compram o que você faz, elas compram o porquê você faz”  Simon Sinek.

Empresas que buscam o lucro a qualquer custo não cativam mais seus funcionários e, por isso, não atingem os resultados esperados. O lucro não pode ser o único nem o principal objetivo de uma organização. Empresas com propósito – razão de existir – que transcendem o lucro fazem muita diferença no mercado e nos negócios. Propósito conecta a empresa com a comunidade onde atua, não apenas porque gera emprego e renda, mas porque gera um impacto positivo no ambiente em termos de qualidade de vida ou seja, possui uma relação propositiva com os seus stakeholders.

Empresas que dispõem de um propósito autêntico e efetivo conseguem melhores resultados, pois são mais sustentáveis no longo prazo e porque conseguem atrair e reter profissionais mais competentes e com maior engajamento por enxergarem que estão se dedicando a uma causa maior e não apenas a um emprego. As gerações mais jovens são fortemente motivadas por significado e propósito em relação à sua carreira e, quando não encontram essas qualidades nos ambientes de negócios, sentem-se frustradas. O business purpose ajuda a desenvolver atitudes como a “dor do dono”, que facilitam a consecução dos objetivos estratégicos da organização e levam a equipe a sentir orgulho de pertencimento a uma causa moral, que pode melhorar a sociedade em alguma coisa. Propósito tem a ver com legado, com o que vamos deixar para a posteridade, para a família, a empresa, a comunidade, ao mundo em que vivemos.

O mercado, especialmente o financeiro, tem demandado cada vez mais um posicionamento das empresas em relação às questões ambientais e sociais e, na prática, poucos executivos sabem lidar com equilíbrio as demandas ESG – Environmental, Social, Governance – temática ambiental, social e governança.

Notícias divulgadas pela mídia neste mês em curso dão conta da decisão do fundador do Nubank, David Vélez e sua esposa se juntando ao movimento Giving Pledge, plataforma filantrópica que se preocupa com a caridade global, doando em vida grande parte de seu patrimônio para projetos com crianças na América Latina.

O que têm em comum os mega empresários Bill Gates, John D. Rockefeller, George Soros, Warren Buffet, Jorge Paulo Lemann e tantos outros que doam verdadeiras fortunas a projetos sociais?

Em recente artigo no Valor Econômico, o economista Luiz Gonzaga Beluzzo trata do arrependimento corporativo de alguns dos mais influentes CEOs americanos num movimento liderado pela American Business Roundtable. Cita que Milton Friedman em “Capitalism and Freedom”, defende a primazia dos acionistas frente aos demais stakeholders do mercado. Friedman dizia: “as corporações não devem ter outro propósito, senão maximizar os lucros para seus acionistas”. Isso provocou um desequilíbrio da distribuição da renda com as demais partes interessadas, especialmente com os trabalhadores. Atualmente, os recursos das empresas destinados ao investimento são menores daqueles utilizados para propiciar a elevação dos ganhos dos acionistas e a remuneração dos administradores – “stock options“. A saída líquida de dinheiro das grandes corporações para remunerar os acionistas e recomprar as próprias ações é relevante. Nesse momento da economia global, ocorre uma valorização dos estoques de ativos e uma queda correspondente dos rendimentos financeiros. Há uma financeirização da riqueza e, ao mesmo tempo, uma valorização de ativos descolada da produção de bens e serviços.

Independentemente de ideologia política, vale a reflexão: “quando o empresário tende inevitavelmente a se tornar um “rentier”, dominante sobre os que apenas possuem o próprio trabalho, o capital se reproduz mais velozmente que o aumento da produção e o passado devora o futuro” (Thomas Piketty – 2014).

Em relação ao dualismo (social versus econômico), eu procuro sempre fazer reverberar um pensamento, de autoria desconhecida, que acredita na coexistência de ambos e no equilíbrio tão necessário para um mundo melhor:

“Entre ganhar dinheiro e mudar o mundo, fique com os dois.”

Não somos favoráveis à ideia de repartir a miséria e sim de construir a riqueza, gerar excelentes resultados, mas com melhor partilhamento dessa riqueza. Enquanto consultor de resultados eu me envolvo muito para maximizar os resultados das empresas e enquanto cidadão, procuro sensibilizar os empresários a compartilhar os resultados e atuar nas ações de filantropia.

Além do balanço econômico, as empresas de comunhão se preocupam também com o balanço social de suas operações e muitas vezes fazem um mea culpa social.

A governança corporativa das empresas deve se preocupar com o tema social, avaliando internamente a política salarial e o nível de bem-estar dos seus colaboradores. Uma das ferramentas úteis, prevista na legislação societária, é o DVA – Demonstrativo do Valor Adicionado, no qual se avalia como é distribuída a renda anual de uma empresa. Parte é para pagar os impostos – a maior parte – outra parte é para pagar os fornecedores, a folha de pagamento, os financiamentos bancários, os acionistas e parte para os investimentos. E qual parte é investida em projetos sociais?

Os Conselheiros e gestores devem se perguntar quanto a empresa contribui com a comunidade onde está inserida, com doações a entidades sociais e com ações filantrópicas, especialmente em momentos de crise como o atual. Vemos algumas empresas efetivamente colaborando com a comunidade e vemos outras mais preocupadas em publicizar as parcas doações. Não é recomendável fazer publicidade com a filantropia, mas pode-se usar exemplos para sensibilizar outras pessoas e entidades. Os doadores mais conscientes não aparecem na mídia.

Poucos empresários e gestores se dão conta que a sua empresa hoje é avaliada pelos clientes e consumidores não somente pelo resultado econômico que ela gera, mas principalmente pelos seus diversos impactos na comunidade e no ambiente na qual ela está inserida.

Um bom começo, e prático, é distribuir aos colaboradores um bônus sobre resultados alcançados. É uma maneira de repartir o incremento dos ganhos obtidos. É muito motivador e vem ao encontro dos princípios da comunhão mas restringe-se ao público interno. E o que as empresas podem fazer para com a comunidade, com os socialmente vulneráveis? Quantas doações fazem regularmente?

Se todas as empresas do Brasil doassem 1% do seu lucro à filantropia, não haveria tanta miséria. E paradoxalmente, poucos empresários e gestores sabem que é possível fazer esse volume de doações de forma legal e incentivada, sem custos.

O Funcriança por exemplo é um meio de as pessoas jurídicas e também as físicas de fazer doações que podem ser abatidas no seu respectivo imposto de renda anual. É doar com o dinheiro que iria para os cofres públicos em forma de impostos. Não representa custo para a empresa que pode abater até 1% de seu imposto a pagar e para a pessoa física que pode abater até 6% de seu imposto a pagar ou a restituir.

Para apoiar a nossa entidade, Afaso – Associação das Famílias em Solidariedade , ou outras entidades de sua cidade, pessoas físicas ou jurídicas podem participar do projeto de captação de recursos junto ao FUNCRIANÇA – Porto Alegre,  acessando o site do FUNCRIANÇA: www2.portoalegre.rs.gov/funcrianca; optando “Projeto Afaso, Abrindo Caminhos de Paz” e seguindo as demais instruções.

Sempre nos perguntamos por que poucas empresas e poucos cidadãos fazem esse tipo de doação, mesmo sem afetar o seu bolso. As razões para essa omissão são a falta de consciência e responsabilidade social e a ausência de um propósito verdadeiro que dê sentido à vida, além do financeiro. Esquecem que a vida somente tem sentido quando o que fazemos faz sentido.

Uma empresa de comunhão desenvolve seus negócios visando obter os melhores resultados que possibilitem o crescimento, a sustentabilidade, a geração e distribuição de renda, melhorando, assim, a qualidade de vida das pessoas envolvidas e da comunidade. Este é o legado que devemos deixar com nosso trabalho e nossos negócios. É uma nova mentalidade dos empresários conscientes e solidários com a triste realidade social de nosso pais.

Finalizo com o pensamento atribuído a Nelson Mandela:

“o que conta na vida não é o mero fato de vivermos. É a diferença que fazemos na vida dos outros que determinará a significância da vida que levamos”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.